Um levantamento inédito da Benevento Advocacia com base em dados do INSS mostra que, entre 2006 e 2024, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais cresceram mais de 1.000%, passando de 1,3% para 15,6% do total de benefícios concedidos por incapacidade. Hoje, um em cada seis afastamentos no país está ligado à saúde mental.
O estudo analisou a evolução dos principais diagnósticos, como: depressão, ansiedade, estresse e burnout. Segundo a advogada Caren Benevento, sócia da Benevento Advocacia e pesquisadora do GETRAB-USP, os números refletem um novo momento nas relações profissionais. “O aumento dos afastamentos não significa apenas mais adoecimento. Mostra também um amadurecimento na forma como a sociedade e as empresas reconhecem e tratam as questões de saúde mental”, afirma Benevento.
O levantamento aponta que as exigências cognitivas e emocionais cresceram rapidamente, impulsionadas por mudanças tecnológicas e novos modelos de trabalho. Para Benevento, o desafio é construir respostas organizacionais à altura desse cenário.“As empresas já entendem que saúde mental é parte da pauta de governança. O próximo passo é estruturar políticas preventivas, treinar lideranças e criar protocolos de retorno ao trabalho que reduzam riscos e fortaleçam o clima organizacional”, completa.
A pesquisa mostra que, embora a maioria dos casos não tenha origem exclusiva no trabalho, o ambiente profissional pode agravar quadros preexistentes. À luz da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), atualizada em 2022, as empresas têm o dever de identificar e controlar riscos psicossociais nos Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR), tratando fatores emocionais e organizacionais com o mesmo rigor aplicado aos riscos físicos e ergonômicos.
De acordo com a advogada, o cumprimento da NR-1 representa uma mudança estrutural na forma de lidar com a saúde mental. “A norma transformou o tema em dever jurídico. Avaliar riscos psicossociais não é mais uma boa prática, é uma obrigação. Essa abordagem reduz afastamentos, fortalece a cultura de prevenção e demonstra diligência corporativa”, explica.
Mudanças no ambiente de trabalho e responsabilidade corporativa
O estudo aponta que a última década consolidou uma nova dinâmica laboral, com digitalização, modelos híbridos e ampliação das formas de vínculo. Essa transformação trouxe ganhos de flexibilidade, mas também novas pressões sobre o equilíbrio emocional e a gestão de pessoas.
Para Benevento, o papel das empresas vai além do cumprimento da lei. “Promover um ambiente de trabalho saudável é parte do dever de diligência empresarial. Incluir a saúde mental na gestão de riscos é proteger pessoas, reduzir custos com afastamentos e preservar a sustentabilidade do negócio”, destaca.
A advogada reforça que a integração entre saúde mental, compliance e governança ESG é o caminho para unir produtividade e responsabilidade social. “O futuro do trabalho exige performance e cuidado. Essa combinação garante relações mais sustentáveis e juridicamente equilibradas”, conclui.